Quantas cidades cabem na história que nos contam pra explicar os 435 anos de João Pessoa? Pensar a esse respeito, e a quem foi dado protagonismo nessa história até nos serve como poderoso instrumento para pavimentar um futuro distinto, em que haja protagonismo para o povo dessa cidade. 

Cada uma e cada um conta a história de uma João Pessoa distinta, pois sobre este chão existem realidades tão diversas convivendo entre si, que podemos dizer que qualquer projeto para futuro precisa compreender as várias cidades que coexistem na demarcação de território.

De certo que há uma perversão sobre o sentido de diversidade, talvez pela preguiça em compreender que a realidade é plural, talvez porque pensar que os problemas do mundo se reduzem ao que a lente de cada um consegue capturar, talvez porque haja quem se beneficie dessa leitura superficial dessa mesma realidade. Penso que a resposta é ampla e diversa, e contempla essas e outras tantas possibilidades.

Diferentemente do que ocorre no aniversário de alguém, a celebração da vida de uma cidade deve se dar pelo desejo de cidade daqueles que constroem essas várias realidades. Assim, entendemos ser possível construir um projeto público, plural e inclusivo.

Para Rodrigo, é preciso modernizar não apenas o funcionamento, mas a compreensão que se tem sobre a gestão pública. Ele acredita que os problemas públicos podem ser melhor enfrentados a partir de uma governança em rede que coloque na mesa os governos, a sociedade e o poder econômico. Isto porque, em alguma medida, a cada problema público solucionado, mais que êxito, todos são beneficiados.

Diógenes chegou do Mato Grosso do Sul com uma mochila nas costas e em João Pessoa aprendeu a sonhar. Sonho que, quando vira verbo, pressupõe ação. Aqui se desenvolveu e imagina uma João Pessoa que impulsione e projete a riqueza da cultura local, o que beneficiaria todos os setores ligados à produção cultural, e daria empoderamento às formas plurais de expressão e arte que aqui sobrevivem, apesar do descaso, da falta de visão. Diógenes é high tech, estudioso que só ele do universo das startups, imagina um ecossistema de inovação pulsante. Transige à ideia de que nossa João Pessoa não tem vocação para ser expoente em inovação, e ousa pensar um conjunto de ideias que revolucione o modo de empreender e inovar.

Para Marcella, nossa cidade precisa antes de mais nada enfrentar um debate esclarecedor sobre sustentabilidade para que a convivência na nossa polis não aumente a dívida com o meio ambiente. Para ela, a sustentabilidade é um conceito de vanguarda mal compreendido, posto que é debate, é pensar modos de vida em sociedade em que haja equilíbrio, colocando para conversar numa mesma mesa os que representam interesses sociais, econômicos e ambientais.

Lucas, o Gondim, tem um interesse particular pela ressignificação dos espaços públicos. Tem apetite por um planejamento urbano que dê aos espaços o sentido correto, porque sabe que a João Pessoa que brilha nas fotografias é dada a uma casta de privilegiados, e que democratizar a cidade implica considerar aqueles que não têm acesso a cidade dos cartões postais, como se em outro lugar vivessem.  Gondim é um inconformado com o potencial inexplorado do nosso centro histórico, ativo abandonado e mal compreendido pelos governos de sempre.

Aline e Joyce, uma mesma pessoa com dois nomes, para denunciar sua sede de pluralidade desde o registro, dá voz às mulheres que não tiveram até aqui o seu devido lugar na construção da história contada. Mais do que políticas para as mulheres, ela deseja que haja políticas pensadas e implementadas por mulheres. Porque é preciso que elas ocupem espaços decisórios para que todas entendam de uma vez por todas que podem ir além, que as portas estão abertas. Já pensou numa João Pessoa em que houvesse uma maioria de executivas mulheres? Aline já. Paula também. Ambas constroem essa realidade, mas entendem que é preciso se organizar e construir uma realidade transformada para todas as outras.

Alanna é corajosa no que deseja. Ouso dizer que sua realização estaria em um processo profundo de modificação de consciência. Um olhar mais claro sobre direitos humanos para que ninguém mais caia na armadilha de estigmatizar esses direitos – que são sobretudo o direito de ter direitos. Na cidade que Alanna quer, as desigualdade de gênero e a violência em razão do gênero seriam problemas resolvidos na sala de casa, nas praças públicas, escolas e repartições, pois haveria uma cadeia de estímulos suficiente para que menos agressores se desenvolvessem, menos mulheres fossem silenciadas, e todes tivessem ampla compreensão sobre a gravidade dessas violências (ainda tão toleradas, ou por que não dizer estimuladas?). 

Gybraiana é sensível no olhar e forte no gesto. Pensa que é preciso criar condições de protagonismo para nossa juventude. Olha para os números e se preocupa: 28% dos jovens pensam em abandonar os estudos após o fim desta pandemia. Outros tantos convivem mais cedo com a escassez de serviços básicos, e mais tarde com a escassez de oportunidade. Todos deveriam ter instrumentos para se desenvolverem e serem o melhor no que quisessem. Todos deveriam compreender que ao se desenvolver enquanto indivíduos devem ressoar na coletividade a responsabilidade do privilégio.

Henrique tem colocado as mãos no nosso cimento há pouco tempo, mas na construção desse projeto seu olhar é atento ao apartheid sob o qual vivemos. O racismo estrutural, com dimensão até ambiental, é observado na territorialidade, de modo que onde está a população preta não há rua pavimentada, rede de esgoto ou abastecimento de água. A total ausência do Estado na vida de quem não tem meios para exercer sequer uma ideia torta de cidadania afirmada pelo consumo gera problemas graves. São várias pessoas espalhadas em porções de territórios que, para muita gente, não existem – nem as pessoas, nem seus problemas, tampouco o pedaço da cidade em que habitam.   

Tantas e várias cartas para cidade eu poderia escrever, tentando olhar e compreender o meu chão, a minha tribo, pelo olhar de quem se situa na mesma trincheira de resistência e construção que eu. 

Meu fascínio por transparência e participação é este: como seria nosso lugar, se todas e tantas vozes tivessem a possibilidade de melhor compreender a força que tem o exercício da cidadania? Que o exercício da política está em servir, e que o ativismo está do outro lado não pela disputa, mas para fechar o círculo até que ele se torne virtuoso, aonde quem deve realiza, e quem financia escolhe prioridades e cobra. 

Na João Pessoa que espero, as vozes rompem o silêncio. Criam-se formas várias de participação, inclusive pela revolução educacional na qual se prepare pessoas para o mercado, para vida em sociedade e para a disputa do sentido da política pela cidadania. Cidadania potente, inclusive digital. Não podemos ficar para trás e temos pressa. 

Nossa cidade é o lugar no qual minha vida aconteceu, onde pretendo que ela continue acontecendo. É rica de possibilidades de um futuro bom. Na véspera de uma disputa eleitoral, ouso subverter a lógica pequena e a todos provoco: antes de escolher quem vai ocupar espaços de poder institucional por meio de mandatos eletivos, nossa cidade precisa do seu povo. Nossa urgência é de pertencimento, organização política não para disputar mandatos apenas, mas para qualificar o debate público. 

O debate sobre a cidade pertence ao seu povo. Ao povo de João Pessoa, os meus votos de que se apropriem desta cidade, pois as figuras que ocupam espaços de poder passam e nós permanecemos. Então que sejamos permanentemente interessados, organizados e prontos para construir a cidade em que cabe a todos. 

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