Guerra contra o vírus.

Em termos de política, nada é ocasional. É ingenuidade acreditar que o uso da expressão “guerra contra coronavírus” tenha se repetido por mera coincidência nos discursos de líderes mundiais como Emannuel Macron[1], Boris Johnson[2], Benjamin Netanyahu[3], Donald Trump[4], Jair Messias Bolsonaro[5], e outros tantos que optaram por conduzir uma questão de saúde com a tônica de segurança nacional.

A opção pela linguagem de guerra contra uma emergência sanitária não encontra precedente nas Convenções de Genebra, mas se dispõe a um propósito de natureza similar. É por meio do pânico sobre um inimigo invisível que a autoridade pública acumula poder, se posicionando no posto de liderança necessária ao combate, revestida de poderes para intensificar algumas medidas de controle necessárias na defesa da saúde, do trabalho, das empresas e das famílias.

A vida das pessoas precisa ser preservada, e a medida que o número de mortos aumenta, se diminui a preocupação com as implicações causadas pelas ações excepcionais. Em tempos como esses, nunca foi tão fácil adotar medidas de vigilância em massa, especialmente diante de uma sociedade que já está acostumada a dispor dos seus dados pessoais de forma imprudente[6], comportamento impresso ao longo de quase uma década de convivência simbiótica com smartphones e redes sociais.

Se o convencimento de guerra é plantado, a tolerância ao emprego de recursos para a defesa e monitoramento certamente frutificarão ao sabor das consequências inesperadas trazidas ao nosso convívio. Cabe, portanto, questionar a sua eficiência, visto que o número de infectados pelo covid-19 continua crescendo, mesmo diante da adoção de mecanismos que se prestam a construir um “novo normal”.

Na retórica em discussão, as democracias retroagem aos frangalhos nas mãos de líderes que governaram por decreto, sem interferência do parlamento[7], e liberdade a privacidade perderam a importância em prol da implementação de medidas que restritivas, do monitoramento de dados[8], da vigilância por câmeras e até mesmo do uso de drones na dispersão de reuniões públicas[9], por exemplo.

É certo que tempos extraordinários justificam (e exigem) medidas extraordinárias, mas não é preciso forçar a imaginação para perceber que essa retórica vem sendo utilizada para além de um mero recurso de metáfora. Não se pode conceber que um cenário de guerra relativize direitos e normalize a arquitetura de uma realidade de opressão, onde sobra tecnologia para controle e vigilância, falta para ampliação e disponibilidade de leitos e respiradores [10].

Mais do que nunca, é preciso manter o estado de vigilância para garantir que a crise sanitária não caminhe para uma crise de liberdades civis. As medidas emergenciais devem ser postas sob propósitos específicos, e com data certa para terminar. Continuar adotando estratagemas para tempos além-pandemia estimularia a concentração de um poder que deixa de emanar das mãos do povo, e passa a ser ditado por setores privados, que enriquecem às custas do processamento de grandes volumes de dados[11], e que frequentemente parasitam sistemas de governo em prol dos interesses de suas corporações.[12].

Mais do que nunca, é preciso estar atento e forte.

Referências:

1‘Estamos em guerra’, diz Macron, ao apertar restrições para conter pandemia. https://www.lemonde.fr/politique/article/2020/03/16/nous-sommes-en-guerre-retrouvez-le-discours-de-macron-pour-lutter-contre-le-coronavirus_6033314_823448.html

2. Boris Johnson declara guerra contra o coronavírus.https://www.channel4.com/news/boris-johnson-declares-war-on-coronavirus

3. Exército de Israel em plena luta contra o coronavírus https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/04/03/interna_internacional,1135222/exercito-de-israel-em-plena-luta-contra-o-coronavirus.shtml

4.  “O mundo está em guerra com um inimigo oculto”, diz Trump sobre coronavírus https://twitter.com/realdonaldtrump/status/1239997820242923521

5. Bolsonaro defende cloroquina em guerra contra o coronavírus, mesmo sem comprovação científica.https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/05/20/bolsonaro-defende-cloroquina-em-guerra-contra-coronavirus-mesmo-sem-comprovacao-cientifica.htm

6. Por coronavírus, Hungria permite que ultradireitista Orbán governe por decreto indefinidamentehttps://brasil.elpais.com/internacional/2020-03-30/lei-aprovada-na-hungria-permite-que-orban-amplie-indefinidamente-o-estado-de-alarme-devido-a-pandemia.html

7. Falta de informação faz brasileiro não temer ameaças digitais https://www.psafe.com/blog/falta-informacao-faz-brasileiro-nao-temer-ameacas-digitais/

8. Como a Coreia do Sul tem usado a tecnologia contra o coronavírus https://www.em.com.br/app/noticia/bem-viver/2020/05/07/interna_bem_viver,1144997/como-a-coreia-do-sul-tem-usado-a-tecnologia-contra-o-coronavirus.shtml

9. Drones são usados pela polícia para alertar sobre o risco do novo coronavírus na China https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/02/05/drones-sao-usados-pela-policia-para-alertar-sobre-o-risco-do-novo-coronavirus-na-china.ghtml 

10. Além do atraso na entrega, há indícios de irregularidades na compra de respiradores no RJ https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/05/15/alem-de-atraso-na-entrega-ha-indicios-de-irregularidades-na-compra-de-respiradores-no-rj.ghtml

11. Empresas que mais cresceram durante a pandemia do coronavírus https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2020/06/10-empresas-que-mais-cresceram-durante-pandemia-do-coronavirus.html

12.  As pessoas foram enganadas para dar algo valioso: seus dados’, diz Brittany Kaiserhttps://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,as-pessoas-foram-enganadas-para-dar-algo-valioso-seus-dados-diz-brittany-kaiser,70003275070

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