Orgulho é ser o tempo todo, em cada instante.

A palavra orgulho é distinta na língua portuguesa. Representa o sentimento de prazer, grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra.  No mês de junho é celebrado o Orgulho LGBTQIA+. 

Orgulho que atravessa as avenidas na contramão de preconceito e violências várias, dos olhares que recriminam e separam braços dados à brutalidade normalizada, que rebaixa o Brasil ao país que sem vergonha, mais mata LGBTQIA+ no mundo.

Existir LGBTQIA+ no Brasil é em si um ato que desafia a lógica do orgulho, e por isso a importância da simbologia dada ao mês de junho. Precisamos aprender que podemos existir, e abraçando a ideia simples e ao mesmo audaciosa de que somos múltiplos, dizer não ao vexame que querem nos impor para sermos e só. 

De um lado, a existência LGBTQIA+ pode ser ilustrada na imagem do adolescente carregando nas costas uma mochila com sonhos e medos, afugentado pelo medo de ser o que já é, pelo ódio que escorre pelas ruas, mas também dentro das casas. 

Por outro, pode ser essa mesma existência entendida como manifesto de coragem, audácia incontida, movimento sinuoso, contrário ao querer que não pertence a quem deseja. Existência expandida, pois tem a função de ensinar às mentes tortas, que a vida não tem receita. Coragem em estado bruto, bonita de contar e difícil de viver. 

Há quem acredite que ser LGBTQIA+ é  fase, outros que é  curiosidade  adolescente. Há quem defina como  mera transformação hormonal, mas, a história desdenha desses dizeres, e debaixo da luz da ciência, no vermelho de cada luta, essas existências foram ganhando olhar mais atento.

Os primeiros registros históricos da existência da homossexualidade são datadas de 1.200 a.c, sendo comumente conhecido, que as praticas ditas homossexuais foram abertamente aceitas por diversas civilizações ao longo dos tempos. 

Contudo, já nessa época, a repressão ao diferente era aplaudida pelo o Estado, na roma antiga, a Lei Escantínia (Lex Scantinia) penalizava os indivíduos do sexo masculino nascidos livres (ingenuus ou praetextatus) que assumissem papel passivo em relações sexuais com outros homens. 

No século XIII, no império de Gengis Khan, surgiu o primeiro código penal contra práticas da homossexualidade. No ocidente, o Buggery Act, na Inglaterra inquisitorial inauguraria as primeiras das leis anti-homessexuais. Até os anos 60, a homossexualidade era ilegal em todos os estados do Estados Unidos, com exceção de Illinois, o próprio pai da computação, pelo qual todos nós deveríamos agradecer a facilidade de, por exemplo, redigir esse texto em um notebook, Alan Turing, foi quimicamente cadastro em 1952 por ser considerado gay. 

Entretanto, já dizia Foucault, “onde há poder, há resistência”, que, em 28 de junho de 1969, em represália a uma invasão policial, uma travesti negra, segundo relatos, atirou o primeiro tijolo contra a policia, dando inicio a Rebelião de Stonewall, no bar Stonewall Inn, em Mahanttan, Nova York, essa era Marsha P. Johnson.

Nesta noite, a população LGBTQIA+ ergueu-se em uma onda de protestos que para sempre iriam mudar a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. 

O impacto da Rebelião de Stonewall gerou a criação dos grupos Gay Liberation Front (GLF) e o Gay Activists Alliance (GAA)., que desempenharam papeis fundamentais na formação de protestos e na inspiração de milhares de LGBTQIA+ por todo país para quebrarem o armário e aceitarem a causa. 

No Brasil, o movimento LGBTQIA+ surgiu pela década de 70, em um país comandado pela ditadura militar. Foi através de publicações nos jornais Lampião da Esquina (fundado em 1978 e abertamente LGBTQIA+) e ChanacomChana (fundado em 1981 por um grupo de mulheres lésbicas).

Conta a história que o ChanacomChana era comercializado em um bar de mulheres lésbicas, chamado de Ferro’s, e em razão do seu conteúdo, a venda não fora aprovada pelos donos do local, o que gerou uma serie de atos políticos no dia 19 de agosto de 1983 que resultou no fim da proibição da venda do jornal, episódio conhecido como “Stonewall Brasileiro”, e também motivo pelo qual que no dia 19 de agosto comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico em São Paulo. 

Foi então em 1980 que reuniu-se o primeiro encontro brasileiro de LGBTQIA+, que com o tempo fora se espalhando por toda américa latina. No dia 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde, finalmente retira a homossexualidade da lista internacional de doenças. 

 Mais recentemente, em 2001, os Países Baixos reconheceram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, situação essa que só ocorreria no Brasil em 2013

Na cena nacional existem outras conquistas: em 2007, assegurou-se benefícios previdenciários a casais gays, em 2010 o STJ reconheceu o direito de adoção por casais homoafetivos. Em 2011 a união homoafetiva passa a ser  considerada entidade familiar, em 2018 foi autorizada a alteração de nome e gênero no âmbito de registro civil e em 2020, cessa-se as restrições a doação de sangue por pessoas LGBTQIA+. 

É nítido que a história é de avanços, mas ao mesmo tempo, o Brasil ainda é o país que mais mata LGBTQIA+ em todo mundo, em especial a população Trans e Travesti.

Toda conquista deve ser encarada pela lente da luta que a antecedeu, e lembrada pelos nomes que transigiram, contando as histórias dos que se rebelaram. Existir LGBTQIA+ é promover rebeliões em doses diárias, rompendo grades para que venham aqueles que poderão florescer e existir sem a dor no peito e tanta violência no lombo. 

Mais do que celebração é no lugar de luta que nos situa o orgulho. Luta para que ocupando espaços com nossa fala, nossa existência faça arder os olhos que insistem em nos negar a possibilidade de sermos o melhor que podemos ser, tal como somos. 

Em cada luta que vem vindo e na vontade do que virá, hoje podemos nos refugiar na arte de Lin da Quebrada, Aretuza, Pablo Vittar e Pepita – com cartas que falam de amor no tempo da banalidade do ódio. 

Assim como as bruxas queimadas na fogueira, que cada LGBTQIA+ possa ser lembrade como marco do mundo para o qual não toleramos mais voltar ou permanecer. Que cada dor sentida, mesmo nas violências que vem de dentro, seja motivo suficiente para assumirmos enquanto pacto civilizatório de que não vamos retroceder. 

O ano é 2020, junho é mais um mês se encerrando como se não tivesse sido vivido. É tempo de amar sem temer e construir emancipação, sem esquecer a sabedoria de que apenas o esforço coletivo altera o status quo. 

Pabllo nos empresta o som para escrever na frieza de uma tela a mensagem de esperança: a previsão do tempo diz que o céu fechou, mas o poder da vitória vai curar a dor. 

É tempo então de esperançar – para que os demais meses sejam verbo, não substantivo. 

Sejamos quem quisermos ser, pois, o importante é ser você (Majur).

Texto produzido com a colaboração de Kevin Ferreira Coutinho e Daniel Macedo.

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