SAY HER NAME (DIGA O NOME DELA!)

Em um TED[1], Kimberlé Crenshaw fala sobre a INTERSECCIONALIDADE, uma teoria onde se aponta a falta de proteção das MULHERES NEGRAS na sociedade atual, seja no Brasil ou para além das fronteiras, as mulheres negras são vítimas de uma dupla discriminação. A interseccionalidade, em apertada síntese, pode ser considerada uma zona, onde duas linhas discriminatórias se cruzam, é basicamente como se para cada linha houvesse uma proteção, mas no ponto em que as linhas se cruzam, nesse ponto específico, não há qualquer medida protetiva, porque esse ponto não é visto como violação, e é isso que ocorre com as mulheres negras, elas possuem legislação que as protegem por serem mulheres e pela sua raça, mas quando essas duas características se cruzam e causam uma violação, a proteção não as alcança. 

Dados do Atlas da Violência do ano de 2017 apontam o aumento de 60,5% no homicídio de mulheres negras, enquanto entre as mulheres não negras o crescimento foi de 1,5%. Ainda, os homicídios envolvendo mulheres em 2017, atingiram 66% das mulheres negras, ou seja, mais da metade das mulheres assassinadas no Brasil foram mulheres negras. 

Apesar das políticas públicas em prol do combate à violência contra a mulher crescerem (em números) pelo país, a eficácia delas pode ser questionada quando nos deparamos com números como os de cima. Se a violência contra a mulher em um recorte de raça aumenta 60,5% é sinal de que as políticas públicas estão sendo implantadas de modo a alcançar número limitado de mulheres e mulheres específicas. 

Façamos um teste rápido: quantas mulheres ocupam locais de poder na nossa sociedade? Quantas professoras negras você teve? Quantas atrizes negras fazendo papéis principais em filmes e novelas você conhece? Quantas colegas de turma negras vocês conhecem? Seu grupo de pesquisa tem uma mulher negra? Você compra livros escritos por mulheres negras? Você adquire produtos oriundos do trabalho de mulheres negras?

O fato de você responder “NÃO” para algumas dessas perguntas não pode ser normalizado. 

Agora, vamos para outro teste: Quantas vezes você viu uma mulher negra fazer um papel de empregada ou de mulher periférica em filmes e novelas? Quantas vezes você viu pessoas não negras falando sobre mulheres negras? Quantas vezes você já viu mulheres negras sendo vítimas de violência policial? Quantas mulheres negras você viu denunciarem a perda de um marido/filho assassinado em “confrontos” nas periferias? 

A história é um instrumento de poder. Sim. P O D E R. Quando lemos a história, fazemos a leitura do ponto de vista de alguém que veio antes de nós. Esse alguém era negro? Esse alguém era uma mulher negra? Se a história da escravidão fosse contada do ponto de vista dos povos africanos e principalmente das mulheres, como seria nossa sociedade atual? 

Eu sei, parece confuso, mas é porque não fomos acostumados a questionar a forma com a qual informação chega para nós. Se uma mulher negra nos contasse sobre a história, ouso dizer, que seria bem parecida com o discurso de Truth[2], o qual segue um trecho abaixo: 

“Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher?Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari 3 treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?

Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como eles chamam isso… [alguém da audiência sussurra, “intelecto”). É isso querido. O que é que isso tem a ver com os direitos das mulheres e dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, porque você me impediria de completar a minha medida?

Em algum momento da história nós colocamos essas mulheres à margem do que era igualdade e direito e até hoje assim o fazemos. Enquanto as mulheres não negras lutavam pelo direito ao voto, as mulheres negras buscavam o fim da escravidão e o retorno dos filhos que há muito haviam sido tirados de seus braços e vendidos. 

O contexto de lutas e conquistas é diferente porque a vulnerabilidade entre elas é diferente e não nos cabe questionar ou desqualificar a luta das mulheres negras, a nós, meus amigos, cabe sentar, ouvir e refletir. 

Como consumidores, podemos buscar fomentar o trabalho dessas mulheres. Como leitores, podemos busca-las nas livrarias. Como pesquisadores, podemos citá-las com o mesmo afinco e apreço ao qual citamos homens brancos. Como sociedade civil organizada, precisamos lutar JUNTO A ELAS pela igualdade desses direitos, porque quando uma mulher negra é assassinada, a responsabilidade é de todos nós. 

Truth, no mesmo discurso acima, disse ainda que: “Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.”

Precisamos ouvi-las. Precisamos prestar atenção no que elas têm a ensinar. Precisamos analisar a história e questionar tudo o que veio depois daquela falácia de “Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil”…

O movimento SAY HER NAME ou DIGA O NOME DELA, é um movimento que busca dar visibilidade aos nomes e histórias das mulheres negras vítimas de abusos policiais, o intuito é que a violência não seja apenas estatística e que a sociedade possa perceber que por trás dos números (gritantes) há pessoas, mulheres, negras, que tiveram a vida brutalmente interrompida. 

Eu convido você a ler o nome delas. 

ATATIANA JEFFERSON (morta a tiros enquanto jogava videogame com o sobrinho); 

BREONNA TAYLOR (morta com 8 tiros, após policiais entrarem seu apartamento a procura de drogas – não havia drogas no apartamento); 

AIYANNA STANLEY JONES 

JANISHA FONVILLE 

KATHRYN JOHNSTON

KAYLA MOORE

MICHELLE CUSSEAUX 

REKIA BOYD

SHELLY FREY

TARIKA

ÁGATHA FELIX

Enquanto não enxergamos a violência contra mulheres negras como um problema social e estrutural, não seremos capazes de protege-las. É hora de mudar. DIGA O NOME DELA, leitor. 


[1]https://www.ted.com/talks/kimberle_crenshaw_the_urgency_of_intersectionality?language=el

[2]Íntegra: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário!
Por favor insira seu nome aqui