Crônica do João do povo

João é um personagem imaginário, hipoteticamente você ou aquele lá. Poderia ser Antônia, mas reservarei às mulheres representações de lutas virtuosas. Então peço licença para contar causos desse abalo sísmico que corrói nossa democracia a partir de João. 

João é um cidadão comum, talvez professor, alguém do povo. Todos os dias a disputa de poder ocupa sua vida e traduzem para João o mundo tal como ele se configura: decisões, narrativas, ataques, notícias, posts em redes sociais – de uns tempos para cá ele soube que tem robôs que alteram a percepção do mundo virtual, principal ponte com a realidade em tempos de pandemia. 

João é simpático à ideia de democracia, entende ser o regime que lhe dá condição de influenciar em alguma medida que seja nos rumos, e como esses rumos dizem sobre as possibilidades de vida dele mesmo, interessa influenciar ao menos um pouco. Ele supõe influenciar até mesmo quando na cozinha de sua casa esbraveja: estão matando o Estado Democrático de Direito!!

João por vezes não sabe em quem confiar, intui não ter em quem confiar até, mas assume posições. Na arena posta, a disputa tem aparência quase didática. Existe uma preocupação legítima em João. O avanço do fascismo assusta, retira dele a capacidade de se pensar como alguém que na pequena medida impulsiona o movimento pendular da política, e vai além, o faz temer que uns poucos que se imaginam o todo façam isso em nome de todos, agindo pelo interesse de alguns. 

João é alguém comum. Quando chega à sala de aula pela primeira vez, se apresenta: meu nome é João.E basta.

Também são comuns suas preocupações, o chão sobre os nossos pés está trepidando, e dividindo o medo do abismo para o qual evitamos olhar para que não nos olhe de volta, João forma sua posição.

Estamos falando de alguém que se diz defensor da democracia. No entanto, a democracia é um jardim que demanda cultivo, como cidadania demanda ação. 

João então entende que pode fazer algo. Reúne pessoas igualmente comuns que dividem inquietações semelhantes, embora tenham maravilhosas divergências sobre como essas preocupações devem ser tratadas. No mundo hipotético que tento aqui construir para João, as divergências são riqueza humana, que quando levadas ao debate democrático rompem o status quo

O esforço individual não muda o estado de coisas, o coletivo pode não mudar também. Tragédia do autoritarismo em tantos casos, farsas democráticas em outros vários.

A democracia se baseia em ideias fáceis como a igualdade humana, a premissa de que o poder é emprestado pelo povo para ser exercido em seu nome e conforme seus interesses por alguns, e a mais desafiadora: a de que a participação popular nutre os espaços democráticos.

Estimular a participação popular deveria ser anseio e objetivo principal de quem se dispõe a ocupar espaços de poder numa democracia. 

O agrupamento das pessoas em torno de problemas e na construção de soluções aponta os caminhos mais legítimos. O que João é capaz de construir coletivamente com seus iguais é rico para a democracia, e quando sai do papel oxigena esse ambiente sufocante, em tantos sentidos igualmente perversos. 

João então olha para um problema que ocorre ali, ao lado do palácio: pessoas em situação de rua. Aquelas pessoas estão à margem, invisíveis, excluídas e deixadas a sós com seus problemas, como se ninguém estivesse disposto a fazer algo. Aqui o verbo importa, pois a ação não apenas supera o discurso como o categoriza como legítimo ou hipócrita. 

João apresenta um plano, reúne quadros técnicos para que esse plano seja algo que dê resposta adequada e suficiente aos problemas. Dá trabalho, mas o tal grupo de pessoas supera essa fase e sente que há sentido e propósito em defender a democracia.

Eles levam o tal plano até o legislativo. Percebam, João a esta altura tornou-se vários. A proposta é aprovada por unanimidade. 36 deputados, 36 cabeças, 36 posições e trajetórias únicas e irrepetíveis, uma unanimidade. João sente que a democracia pode não ser um delírio. 

Ele enxergou um problema além de si e de alguma maneira, munido da força que tem a coletividade numa democracia, fez com que as 36 pessoas que representam todas as outras também enxergassem. Em tempos de política praticada pelo ódio, João sente que o foço não é tão fundo. 

Mas existe outro João. O outro João é governador do Estado da Paraíba, ocupa espaço de poder democrático num palácio que conota bem as disparidades todas que nossa sociedade de tanto engolir, adoeceu.

O outro João levou 15 dias para vetar o plano que o João e seus camaradas apresentaram. 

Evidente que o discurso permite manobras espetaculares. No discurso e na retórica, enquanto nega a implementação da medida, apresentando obstáculos vários e fugindo da sua responsabilidade para não reconhecer sua inoperância. 

O João que governa reúne seus camaradas e diz que não é possível, que não é com eles, mas que as intenções estão todas lá, como enfeites num caixão.

O João do lado de cá, reúne as pessoas várias que se mobilizaram e apesar do cansaço e frustração iniciais, após ouvir palavras de conforto de um camarada de lutas e desafios, diz a todos: nossa luta acabou de começar, porque agora, mais do que antes, sabemos o quanto a democracia depende de nós para ser mais que um discurso de palanque.

Nós te entendemos João, o de cá. 

Em tempo, esta é uma história baseada em fatos reais.

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