Os nem 30 do Brasil.

O Governo Federal parece estar pronto para atender e superar qualquer expectativa acerca do surrealismo cruel do seu posicionamento e de seus partidários.

No último sábado, 30/05/2020, Sara Winter promoveu mais um de seus burlescos atos “políticos”, aliás, se você leitor ainda não a conhece, é preciso começar ilustrando que a cada passo que dá, esta barulhenta fundamentalista religiosa parece violar uns 3 princípios constitucionais e uns 10 artigos do código penal. 

Sara diz ter se curado do feminismo e ameaça agredir um Ministro do STF com socos, ao passo que brada temer a possibilidade de ser injustamente presa, posto que é surpreendente que alguém cuja base da conduta é o ataque a democracia possa ser preso não é mesmo? 

Fala-se aqui de uma personagem caricata, que no início de sua caminhada política foi treinada na Ucrânia, pelo Femen, famoso grupo feminista, hoje baseado em Paris, que defende a luta contra o patriarcado em vertentes como o combate à exploração das mulheres e, pasmem, à ditadura e religião (foco aqui, leitor), tendo fundado a variante brasileira do dito grupo.

É preciso contextualizar os eventos da vida desta icônica bolsonarista para que ninguém se perca na “contação de história”, especialmente porque ela própria está perdida, expressando-se sempre em uma miscelânea incompreensível de posicionamentos contrapostos e opiniões extremas.

A reviravolta da sua trajetória se deu em 2015, quando se assumiu religiosa e se converteu em antiabortista, passando a combater com veemência as pautas que antes defendia. Contudo, a incoerência é, hoje, sua maior roupagem. Enquanto se diz “pró-vida”, posa com pistolas, incita a violência e acredita em medidas punitivas do tipo “bala na testa”.

No momento, as suas maiores bandeiras envolvem o conceito de uma guerrilha de direita. 

Diz ter treinado 150 pessoas em “técnicas de subversão e cooptação”, e agora tenta evidenciar o movimento “Os 300 do Brasil” que no último sábado exibiu um desfile grotesco de não mais de 30 mascarados segurando tochas, em uma estética facilmente associável ao Ku Klux Klan, ou a uma série de terror com baixo orçamento, como queiram. 

Ao que parece Sara tem problemas com números, além do aspecto incontornavelmente fake de sua atuação belicosa. Nas manifestações bolsonaristas do dia 03/05, instalou cerca de 20 barracas em frente ao Congresso Nacional, dizendo ser o acampamento dos “300 do Brasil”, barracas estas que eram exatamente iguais e chegaram ao mesmo tempo, nem mesmo o exército norte coreano contaria com tamanha disciplina e padronização estética. Ou seja, falta organicidade para dizer o mínimo, além do fato de que não se sabe ao certo se a intenção é ser guerrilha ou Santa Inquisição. 

Especialmente porque para além da megalomania numérica, existe aí um problema conceitual, já que guerrilha, na acepção original do termo, é um movimento revolucionário que se coloca contra o arranjo político vigente. 

Ora, decerto que um grupo reacionário apoiando o governo estabelecido não pode se chamar guerrilha. Mas tudo bem, entendemos. A ex-feminista quer criar um grupo paramilitar, e aparentemente acha que é tudo a mesma coisa, afinal a guerrilha anda armada, os grupos paramilitares andam armados, ela anda armada, que diferença faz? Parece que, aos seus olhos, o mundo é uma grande partida de Counter-Strike.

Se os “300 do Brasil” fossem uma pesquisa acadêmica o escopo e a abordagem estariam muito longe de qualquer definição. Seu projeto não seria aprovado no PIBIC, viu Sara? Problemas graves de metodologia.  Mas quem se importa com educação? A filosofia dos 300 é armamentista e paramilitar, o intento é espancar jornalistas e alguns ministros do Supremo, enquanto defendem a democracia (?), e aqui indago ao leitor: será que pensam que democracia é o regime político do “demo”? Assim faria mais sentido.

Apesar de tudo, é preciso ser condescendente, a tendência de Sara de decuplicar o contingente real de seus seguidores vem do chefe da sua seita, o Presidente da República. Porque nós, que sabemos de fato o que é democracia, somos 70%. Porém, a retórica Bolsonarista se baseia na hipérbole, no grito de guerra, na zoada, de modo a permitir que os seus 30% se sintam como 70%, e assim se afirmam.

Mas não podemos esquecer que, tal qual diz Malba Tahan em “o homem que calculava”, a matemática é um método de pensamento que se aplica a todas as disciplinas e desempenha um papel crucial na ciência e, a despeito do completo desprezo que o Bolsonarismo tem por ela, segue aqui, potente, resistente, polivalente. 

Não somos apenas 70% que acham que o Presidente está fazendo um péssimo governo. Somos 70% que apoiam a continuidade do isolamento e somos 70% que sabem que (uau!) a terra é redonda (e aqui só são cabíveis as discussões para usar o termo mais preciso, já que na verdade o planeta é elíptico, olha a ciência aí, gente!).

Enfim, que Sara e seus 30 do Brasil saibam que somos 70%, estamos todos juntos e os convidamos a virem para o lado de cá do gráfico, afinal a Democracia é acolhedora, libertária, e se não a matarem, os perdoará 70 X 7.

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