O amargo brinde ao covid-19

 Dizem por aí que precisamos sempre ver o lado bom das coisas, que tudo traz uma lição e que o mundo não voltará a ser o mesmo após a mais grave crise que enfrentou desde a segunda guerra.

Não sabemos muita coisa, mas é fato que nosso SUS não regredirá, afinal, investimentos voluptuosos como estamos vendo, estavam proibidos desde a famigerada “PEC do Teto” (aquela que limitava por 20 anos os investimentos aos do ano anterior) e nunca foram moda, verdade seja dita.

Infelizmente, nós, profissionais da saúde do sistema público de saúde, sempre ocupamos o cargo cruel de expectadores privilegiados da morte alheia – e não existe tarefa mais árdua do que lidar com mortes ou adoecimentos ocorridos por falta assistência. É verdade, não estávamos bem. E ainda não estamos.

Ainda padecemos com o represamento de pacientes em UPAs (unidades de pronto atendimento que não deveriam passar mais de 24h com um paciente), indo à óbito diariamente por falta de assistência adequada. Falta, inclusive, recursos diagnósticos. Se não há hospital, as UPAs e similares viram depositários de doentes.

Diferente da copa do mundo ou das olimpíadas (e não estou aqui menosprezando o impacto do investimento em esportes), os insumos e o conhecimento ficarão. A arena Amazonas poderia ser um grande hospital, mas preferiu ser palco não de grandes jogos, mas de insensatez e corrupção.

Construir hospital e equipá-lo para manter um bom serviço nunca deu Ibope como ostentar estados inúteis ao mundo.

Agora, pare e responda: você já se perguntou se todos os respiradores que estão sendo comprados não eram necessários antes?

Eram. São. E sempre serão. A pandemia nos bagunçou, nos tirou a paz, mas deixará para nós um arsenal de equipamentos e recursos nunca antes disponíveis.

Se tanto assusta a realidade de Manaus, deixo aqui mais uma pergunta: quantos leitos hospitalares e de UTI existiam pré pandemia naquela cidade? Quantos e quantas não morriam todos os dias na angústia por uma vaga?

A pandemia explicita até para aqueles que ostentam seu analfabetismo político que sim, sempre foi possível e necessário investir, não houve foi responsabilidade e zelo por essa gente que tanto sofre.

Hoje estamos reaprendendo o poder da etiqueta da tosse, da higienização constante, do cuidado que nos foi ensinado crianças e esquecemos. Estamos abrindo os olhos para o descaso que tanto fere profissionais e pacientes do nosso sistema. Estamos enxergando que o novo coronavírus encontrou todo o seu terreno preparado para se disseminar.

Precisamos acordar e lutar em uníssono para que ao final de tudo isso um paciente jovem, chamado SUS, saia curado.

Sempre repito: o SUS mata por omissão e dopa por covardia. Mas hoje tenho a esperança, ao menos, de que quando tudo isso passar, estaremos, enfim, começando a praticar a universalidade, a equidade e a integralidade, e sermos, enfim, únicos. Não percamos o minuto de ouro. Lutemos pelo nosso sistema. Uma hora, sem dúvida, venceremos.

Danielle Urquiza é médica pela UFCG, com atuação na APS em 2019 e plantonista de urgência e emergência. Está na linha de frente de uma luta que deve pertencer a todos. O Instituto Projeto Público, enquanto sociedade civil que se organiza e busca soluções, agradece à Danielle. Pelo texto, pela luta diária, e por representar através dessa luta o sentido de existir enquanto mulher, paraibana e médica em tempos de pandemia, e para além. Obrigado!

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