O cidadão do mundo não existe


As grandes crises moldam a história dos países, que são obrigados a desenvolver sua recuperação a partir do resultado das estratégias escolhidas e das chagas expostas à sociedade e que permanecem abertas por um longo período.

Apesar do negacionismo que ainda contamina o debate nacional, a esta altura as projeções mais seguras mostram que a pandemia deixará um rastro de mortes, levando à falência do sistema de saúde, e impactando severamente a economia. 

O mundo que nascerá após a pandemia exigirá modificações na percepção comum e no funcionamento do universo da política, economia, educação, ciência e tecnologia, e até mesmo da cultura. Falo em percepção comum e funcionamento, porque no caso brasileiro, sobretudo deveremos entender os papeis que se desenvolvem em cada âmbito.

A mão invisível do mercado que condicionou a ação política nos últimos anos está rendida, atada, não responde a esta crise, pois não tem em sua dinâmica de funcionamento ferramentas para tanto. Um jacaré sem dentes, daqueles que vira bolsa se dormir.

A troca de papeis e regras ainda em estágio de experimentação, e permeada de confusão, gera desorganização estrutural.

Precisamos reconfigurar a sociedade, os negócios, a política e a vida. A história mostra que os filhos do caos firmam compromissos mais humanos e seguros, um pacto civilizatório revigorado e atento a questões sensíveis cuja negligência se mostrou como parte do que causou o próprio caos. 

De um modo especial o mundo volta seu olhar para ciência e tecnologia. No Brasil há de ser paga fatura alta pela desatenção crônica quanto ao desenvolvimento científico e tecnológico, que se situa como ponto estratégico para ampliar as capacidades dos indivíduos – o que corrobora uma noção mais ampla de desenvolvimento. 

São áreas que sofreram agressivos cortes de orçamento público, o que retrata não serem prioritárias – nem política, tampouco socialmente.  No mundo todo pesquisadores caminham em marcha acelerada para identificar ameaças e criar soluções que mitiguem os efeitos devastadores. 

O mundo globalizado, integrado culturalmente, não garante iguais condições de acesso a bens tecnológicos.  Na medida em que temos elevada dependência, temos dificuldades de acesso, enquanto nações com maior autonomia tecnológica e consolidada rede de ciência e tecnologia movem esforços prioritariamente para solucionar suas questões internas.

A ideia de cidadania global mostrou-se como delírio. O cidadão do mundo não existe. O Estado Nacional como provedor das necessidades do povo espalhado em seu território, cujo papel chegou a ser considerado ultrapassado, é o ator a quem cabe dirigir a ação política, econômica e social. 

Este Estado, que até ontem deveria ser mínimo para tantos, precisa agora ser suficiente para todos. 

Na economia, por mais que insistam que o Brasil não pode parar, o que cabe ao Estado é garantir renda à população e liquidez às empresas, para que no dia seguinte haja emprego e atividade econômica.

Essa disputa com a realidade, que hora ou outra se impõe e silencia os discursos teimosos, vai dá lugar ao convívio lúcido com o cenário posto: as empresas não vão continuar produzindo, as pessoas não vão continuar comprando, o mercado não tem como responder a este desafio, e para enfrentar o dilema teremos que formar um consenso inesperado: mais Estado, mais Brasil. 

A grande questão nacional, de antes e de depois desta crise, é que o país precisa crescer. Com a pergunta que volta e meia faço por aqui: crescimento para quem?

As condições de crescimento vem sendo associadas à necessidade de reformas. No entanto, as reformas necessárias após esta crise tenderão a ter configuração distinta para dialogar com o mundo repleto de variáveis antes não conhecidas. 

O Estado em tempos de cólera, que de mínimo não tem nada, é quem freia o desemprego, garante a sobrevivência das empresas, fortalece o sistema de saúde e de proteção social. Sem um Estado Nacional forte com capacidade de diagnóstico e resposta ao vírus e aos desafios políticos, econômicos e sociais, vamos minguar como cidadãos de um mundo aonde as nações resgatam a antiga formula que interliga governos, povo e território. 

Não é o momento de cometer o erro grosseiro das bandeiras que não dobram. Quem tem sempre a mesma resposta, invariavelmente estará equivocado em algum momento. O cenário, caro leitor, se impõe. 

Não há terra prometida, esta travessia nos conduzirá a terreno ainda desconhecido.  A dica é que quanto maior a capacidade de organização e influência da sociedade, maior a garantia de que as decisões serão tomadas conforme nossos interesses. 

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