Marcha pela ciência: os impactos da pandemia sobre o Brasil conforme as medidas adotadas

Em tempos de irracionalidade como matéria prima do discurso oficial, muito tem se falado sobre a necessidade de que as decisões no enfrentamento a pandemia de Covid 19 sejam tomadas com base em critérios técnicos.

É bem verdade que não existem bases científicas com a solidez para serem tratadas como imperativas quanto a diversos aspectos. Porém, alguns estudos tem orientado a tomada de decisões pelos governos de países cuja economia tem muito a perder com medidas restritivas como o isolamento social.

Segundo nova pesquisa do Grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College de Londres (acesse aqui o texto em inglês), instituição que vem fazendo quase em tempo real projeções matemáticas do crescimento da pandemia e avaliações das ações em andamento, há como calcular o impacto da estratégia de isolamento social que só mantenha idosos em casa – a resposta à pandemia que sugere e difunde o Presidente Jair Bolsonaro.

As projeções apresentadas pelo grupo fizeram o primeiro ministro britânico Boris Johnson recuar no discurso de negação do caos e defesa do isolamento vertical (medida defendida por Bolsonaro) para adotar medidas mais severas no Reino Unido – tardias para sua própria saúde, Boris testou positivo para covid 19.

Os cientistas, liderados por Neil Ferguson, comparam os possíveis impactos sobre a mortalidade em vários cenários: ausência de intervenções, com distanciamento social mais brando, que eles chamam de mitigação, ou mais restrito, que é a chamada supressão. 

No Brasil, se estima que a estratégia de isolamento vertical (dos idosos e pessoas em grupos de risco) poderia levar à morte mais de 529 mil pessoas em decorrência da covid 19. O número representa um pouco menos da metade do número de mortos no caso de nenhuma ação ser implementada para reduzir a transmissão – 1,15 milhão é o estimado para o Brasil se nada fosse feito para conter a transmissão.

Os pesquisadores consideram que se houvesse no Brasil uma restrição mais ampla de isolamento, e feita de modo rápido, os resultados seriam bem menos dramáticos: neste cenário ocorreriam cerca de 44 mil mortes.

Projeção de mortes causadas pela pandemia de covid 19 conforme as medidas adotadas para conter a transmissão feita pelo Grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College de Londres

Aqui cabe insistir no esclarecimento: no combate a pandemia, tão ou mais importante que ampliar a capacidade de tratamento das pessoas infectadas a partir da estruturação do sistema de saúde, é reduzir a curva de contágio. Uma ação depende da outra para que o resultado final seja satisfatório, o que significa dizer, mais vidas sejam poupadas.

Outro ponto merece cautela na análise apresentada pelo estudo: as projeções foram construídas considerando dados da China e de países desenvolvidos com elevado Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, que considera a renda média da população, um drama brasileiro que pode tornar otimistas as previsões do estudo.

Bolsonaro mantém firme o discurso de ataque ao isolamento social, defendendo tanto quanto pode, inclusive com o manejo de quase R$ 5 milhões sem licitação para propaganda institucional, que o Brasil não pode parar. O presidente prega o tão falado isolamento vertical, mas, até aqui, não foi apresentado plano de ação para ser implementado garantindo eficácia a esta medida.

É como se a simples recomendação numa live em sua rede social bastasse para garantir a eficácia da medida.

O isolamento vertical que Bolsonaro defende é a política pública da frase feita, que desconsidera os graves problemas de coordenação com os governos locais que precisam ser superados para que mesmo uma medida menos protetiva, tenha eficácia para reduzir em alguma escala os danos causados pela pandemia à saúde dos brasileiros.

“O brasileiro quer trabalhar. Esse negócio de confinamento aí tem de acabar, temos de voltar às nossas rotinas. Deixem os pais, os velhinhos, os avós em casa e vamos trabalhar”, disse ontem em entrevista à BandTV.

Se há plano ele desconhece, como não coloca no seu discurso um mínimo de racionalidade para ao menos demonstrar para a população os impactos das diferentes decisões que podem ser tomadas.

Essa seria a forma de funcionamento de uma sociedade democrática, cuja exigência deveria ser geral, pois na democracia é preciso que o povo tenha sede de informação para ter condições reais de participação qualificada.

Estamos gameficando em circo, com aplausos gratuitos e paneladas furiosas, um momento sensível que envolve danos irreversíveis e intoleráveis.

Segundo os cientistas, as estratégias de mitigação focadas na blindagem de idosos (redução de 60% nos contatos sociais) e desaceleração, mas não interrupção da transmissão (redução de 40% nos contatos sociais para uma população mais ampla) poderia reduzir o numero de mortes pela metade. Mesmo neste cenário, haverá sobrecarga dos sistemas de saúde.

O tal colapso que o Ministro da Saúde anunciou antes de beber na fonte do esquecimento do juramento de Hipócrates que fez enquanto médico.

Porém, insisto, o isolamento vertical requer refinamento das ações, ampla transparência e conscientização da população, ampliação da capacidade de monitoramento do sistema de proteção social, e outras medidas que não cabem no slogan vendido de que ‘’o brasil não pode parar’’.

Os cientistas não projetam efeitos econômicos e sociais em seus estudos. Tais efeitos não podem ser desconsiderados pelos governos, que estão adotando pacotes diversos para diminuir o impacto na economia, buscando proteger vidas, empregos e empresas (nesta ordem).

 “Nossa análise destaca as decisões desafiadoras enfrentadas por todos os governos nas próximas semanas e meses, mas demonstra como uma ação rápida, decisiva e coletiva agora poderia salvar milhões de vidas”, resumem, de forma precisa, o que deveria ser posto pelo governo em sua propaganda obscena e emburrecedora, cujo assunto será tratado com o devido tom na coluna pé na porta deste domingo.

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