Salvem os livros, o passado começou.

O dia foi 07 de fevereiro de 2020. O Brasil acordou com a notícia de que, o governador de um dos 26 estados determinou o recolhimento de mais de 43 títulos de obras literárias por considerá-los inapropriados para crianças e adolescentes.

 Poderia ser o começo de um conto de tema pós-apocalíptico e qualidade discutível, mas trata-se de notícia veiculada hoje, demonstrando um ofício elaborado pela secretaria estadual de educação do governo de Rondônia.

Para além das mais de 4 dezenas de títulos listados para serem recolhidos das escolas públicas sob o burlesco argumento de serem inapropriados à leitura de crianças e adolescentes, ainda existe no documento uma nota que sinaliza a necessidade de recolhimento de todos (isso mesmo, todos) os livros de Rubem Alves.

Aqui temos um ponto de alerta que não se pode ignorar, Rubem Alves, dentre os tantos assuntos sobre os quais escrevia (inclusive conta com inúmeras publicações infantis), abraçava a temática da educação com sensibilidade e afinco.  E, obviamente, em um projeto de deseducação que ostensivamente se executa, por que permitir que um autor assim seja lido?

Emancipação? Liberdade de pensamento? Construção intelectual crítica? Que a onda de moralismo seletivo que acomete o país nos livre, não é mesmo?

O atual governador de Rondônia é o Coronel da Polícia Militar Marcos Rocha, que não considera inapropriado fazer campanha política com as mãos em forma de arma, posto que é claramente um adepto da filosofia da “violência de bem”, que valida um discurso de ódio esteticamente moldado para parecer heroico, próximo a um código de cavalaria medieval, mas que com este em nada se afina na honra ou na ética, mas apenas no excesso de religiosidade, intransigência e gosto pelo sangue.

É incontornável que a tirania sempre perpassa pelo massacre à literatura, já que, por óbvio, como ferramentas de estímulo a criatividade, fantasia, questionamentos e transgressões, os livros se mostram como obstáculos incômodos aos planos de manipulação pasteurizada que o discurso político do ódio normalmente traz.

A literatura é epicêntrica e perturbadora. A partir da exploração da linguagem, da exposição de culturas diversas, da “contação” de histórias, da propositura de novas realidades, acaba por fragilizar o que já não serve, corroborar o que ainda é útil, renovar, reciclar ou expulsar… É um espaço abstrato de acalento e inquietação, de concordância e divergência.

Por isso mesmo, são tantos os episódios em que, para se conseguir o domínio sócio comportamental de determinada comunidade, o primeiro ataque é feito aos livros. A construção do cativeiro conta com o esvaziamento de toda e qualquer ideia de liberdade, pois além dos muros, é preciso que o cativo não compreenda ou construa ele próprio outras possibilidades de vida – e de sociedade.

Lembremos  da Inquisição Espanhola que no século XV queimou cerca de 5.000 manuscritos árabes em Granada; no século XIX, a queima da Biblioteca do Congresso Americano pelos ingleses, com a perda de mais de 3.000 livros;  o mais famoso de todos os infelizes episódios desse tipo, o Bücherverbrennung, a queima de livros promovida em praça pública pelos Nazistas em 1933.

Como sabemos, a lista não para por aí, mais recentemente também nos Estados Unidos, na década de 1950, o McCartismo deflagrou a queima de livros considerados comunistas e por um caminho parecido seguiu a ditadura de Pinochet no Chile… E agora, quando achávamos não mais ser possível um retrocesso nestes contornos, assistimos a reestréia de um passado sombrio.

Mas, há esperança, pois a literatura tem a capacidade de resistir e retornar, já que não importa se os livros são queimados, trancafiados ou envenenados como na abadia medieval de “O nome da rosa” de Umberto Eco, a inquietação, a busca por respostas, os anseios de fantasia sempre traçarão sua rota até eles. 

Dito isto não podemos relevar o fato de que na malferida lista da secretaria de educação de Rondônia, há inúmeros títulos que ocupam a prateleira dos clássicos. 

Normalmente se entende por clássico o livro pelo qual a história contada incita a reflexão de uma maneira significativa, marcante, isto é, a narrativa não protagonizaria um clássico, mas os efeitos que causaria no leitor, a experimentação vernacular, a expectativas propostas.

Para Jorge Luís Borges, contudo, clássico não é um livro que possui méritos específicos, “é um livro que as gerações humanas, premidas por razões diversas, lêem com prévio fervor e misteriosa lealdade”.

É a esta compreensão que me atenho aqui, pois é o medo do fervor dos questionamentos e da lealdade ao pensamento crítico que faz tremer a tirania da ignorância.

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