A ciência por trás do desastre

Há quase sessenta dias os estados do nordeste vem sofrendo com a contaminação de praias e estuários por um vazamento de petróleo de responsabilidade ainda desconhecida. Diante da omissão do Governo Federal, chamou atenção, além da união de comunidades inteiras numa ação conjunta de limpeza das localidades atingidas, uma série de iniciativas de pesquisa científica de instituições federais de educação, suscitando novamente um alerta sobre a importância da ciência para o desenvolvimento do Brasil.

Dias após o aparecimento da primeira mancha de petróleo no litoral do estado de Sergipe, o Departamento de Geociência da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificou a origem do óleo. A partir da análise das características físico-químicas do material, os pesquisadores concluíram que o petróleo tem forte semelhança com os produzidos na Venezuela, o que não significa que o governo venezuelano seja o responsável pelo derramamento.

O óleo já atingiu 9 estados nordestinos, mais de 80 municípios e mais de 200 localidades. A maior preocupação agora é evitar que o petróleo chegue a outros lugares como o santuário de Abrolhos e Fernando de Noronha. 

A contaminação por óleo no nordeste afetará não só o ecossistema marinho, mas também a saúde e as economias das localidades atingidas. O petróleo, segundo especialistas, possui uma série de substancias tóxicas e até cancerígenas que ainda que retiradas das praias, continuam circulando pela corrente marítima, contaminando as águas e tornando as praias impróprias para banho e pesca.

O oceanógrafo Moacyr Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), alerta que pessoas devem evitar entrar nas áreas atingidas pelo óleo e consumir pescados e frutos do mar até que seja identificado o nível de contaminação. Para isso, outros dois oceanógrafos da UFPE foram chamados pelo Governo do estado de Pernambuco para averiguar o nível de contaminação das águas. Os resultados ainda devem demorar algumas semanas. 

Em estudos mais avançados, o Instituto de Biologia (Ibio) da Universidade Federal da Bahia realizou análise em uma amostra de mais de 30 animais pescados na região metropolitana de Salvador e encontrou uma situação alarmante, em que todos eles continham alguma quantidade de óleo dentro do corpo.

Por solicitação da Marinha do Brasil, pesquisadores do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) buscaram detectar o ponto de origem do despejo de óleo que polui a costa do Nordeste. Utilizando um modelo matemático das correntes marinhas do Atlântico cruzado com o mapa de detecção das manchas de óleo disponibilizado pelo Ibama, as simulações indicaram uma área entre 600 km e 700 km da costa brasileira, numa faixa na fronteira entre Sergipe e Alagoas. 

Outra inciativa que ganhou destaque foi o uso de um “biogel” para auxiliar a limpeza das praias. O material foi desenvolvido durante mais de 20 anos de pesquisa por um grupo do Instituto Avançado de Tecnologia e Inovação em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco. O “biogel”, uma espécie de detergente natural normalmente usado em usinas termelétricas, atua, segundo os pesquisadores, “quebrando” a cadeia de hidrocarbonetos em pedaços menores e facilitando sua decomposição.

Em desastres recentes como o de Mariana e Brumadinho, também vieram à tona uma série de outras iniciativas de universidades brasileiras que auxiliaram na criação de um plano de ação para as autoridades competentes. Considerados pouco úteis pela atual gestão do Presidente Jair Bolsonaro, os cursos de humanas foram responsáveis, por exemplo, por uma série de estudos que alertavam para práticas indevidas da atividade mineradora em vários estados brasileiros. 

A produção científica, expressa em um vasto conjunto de dados, metodologicamente sistematizados e empiricamente fundamentados pode evitar ou mitigar as consequências sociais e ambientais de desastres como estes.

Além do interesse científico, os resultados destas pesquisas servem a usos sociais mais amplos, relativos a construção do interesse público e do bem comum. A pesquisa social da universidade pública fornece um conhecimento de livre acesso e de grande utilidade que pode auxiliar os atores sociais na tomada de consciência e no alerta para a esfera pública. 

A ciência brasileira resiste e nos salva.

  • Texto do economista Jomar Andrade, originalmente publicado na coluna “Cuscuz, Café & Crise”

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