Nordestinamente falando

Vou usar as grandes porções de Nordeste que habitam meu bixo político para falar sobre o que é ser nordestino e viver o pertencimento a este chão diante não apenas do desastre ocorrido em nosso litoral, mas especialmente a partir do tratamento político e institucional dado ao drama regional que nos fez perceber que a Nordestinidade requer compreensão política da questão regional, do litoral ao sertão.

A questão regional no Brasil é usualmente explicada a partir do semiárido nordestino e toda a problemática socioambiental e impasse político que contam a história da região desertificada mais populosa do mundo, que, embora conhecida pelos longos períodos de estiagem, tem na verdade um regime pluviométrico particular, dada a concentração das chuvas em curtos períodos, com grandes intervalos de tempo – chove muito, e demora pra chover de novo.

No imaginário popular, a seca se apresenta por imagens de pessoas experimentando profunda miséria, pela fome e pela sede, mazelas acompanhadas de inexistência da oferta de serviços básicos e condições mínimas de existência. Famintos e sedentos são os eleitos para serem tratados como se não existissem.

A fome e a sede do sertanejo tem conotação política óbvia, não são um estado natural de coisas, mas resultado de dinâmicas políticas que atendem a interesses vários em detrimento do dever primeiro de garantir condições dignas de vida àquela parcela da população.

Assim, podemos dizer que o semiárido nordestino representa uma sinalização interessante sobre a fraqueza da democracia do Brasil, já que o regime democrático se baseia na ideia de igualdade humana.

Embora o voto do sertanejo contabilize a mesma fração do voto de um banqueiro na construção de um resultado eleitoral, essa igualdade de cartório não conduz o sertanejo à agua que mataria sua sede: condições reais de cidadania.

Com condições reais de cidadania as pessoas se articulam em prol de seus interesses, organizam-se para que a Polis ouça e entenda suas reinvindicações, e conseguem impor prioridades ao sistema a partir dos valores prioritários que estruturam o próprio sistema.

Os interesses econômicos são defendidos com vigor e efetividade por grupos organizados e bem articulados, o que não é em si um problema, começando a ser mazela social quando se percebe que o sistema não cria condições de cidadania para que o sertanejo (e não apenas este) se organize e influencie nas decisões que lhe interessam, como também, não está pronto para receber essas demandas.

”Uma republica de oligarquias e carteis é mero esboço de república. Serve a poucos mesmo quando tem muitos defensores.”

No entanto, quando uma republiqueta atrai a simpatia dos que não tem influencia nas decisões que lhes interessam, nem tem garantidas condições para compreender claramente

como tais decisões lhes afetam antes que elas sejam tomadas, cria-se um impasse que não é resolvido em outro lugar que não o do debate público.

Debater é exaustivo, o no Brasil pós 2018 o debate tornou-se local pouco habitado, pois no máximo as pessoas ouvem umas as outras para contra argumentar, não pela divina virtude da escuta. Na histeria social reina o dialogo dos surdos. No colapso os poderes se movimentam sem amarras necessárias.

Nordestinamente falando, o derramamento de óleo na faixa costeira do Nordeste brasileiro representa sobretudo o tamanho da questão regional, desafiando a ideia de igualdade humana que sustenta qualquer regime democrático.

Não é coincidência que essa mistura de desacerto generalizado e inércia política seja traço comum ao que ocorre com o sertanejo. As populações litorâneas levam seus reclamos ao governo mais como suplica que como legítima reinvindicação dos direitos que a cidadania lhe confere. Não há coincidência no comportamento estatal de reagir a questão que tem prioridade óbvia, se considerados os valores gerais que orientam o sistema, apenas sob tensão política que ultrapassa o constrangimento – inclusive perante a comunidade internacional.

Quase mil toneladas de óleo retiradas, ações desenvolvidas de forma esparsa, sem coordenação, sem transparência nem prestação de contas a sociedade, e em especial às populações atingidas.

O discurso oficial como meme de mal gosto, voltado não à prestação de contas à sociedade mas ao que pode ser mais viral nas redes, ao que sacia expectativas políticas e não comprometido com as providencias que solucionam.

Governos medidos pela simpatia e entusiasmo e não pela resolutividade no enfrentamento de problemas públicos enfraquecem a capacidade das instituições e da sociedade em exercer seu necessário papel de controle do exercício do poder, já que poder sem controle se reveste de tirania.

Sofócles, ao descrever o embate entre Antígona e Creonte1, uma mulher que reivindicava de seu governante o direito legítimo de enterrar seu irmão, usa palavras que encheriam a boca de qualquer nordestino insurgente, desses que entendendo a gravidade do tratamento dado à problemas regionais crônicos, invocaria como se naturais ou divinos fossem, os direitos que a Constituição os garante:

“Mas Zeus não foi o arauto delas para mim,

nem essas leis são as ditadas entre os homens pela Justiça,

companheira de morada dos deuses infernais;

e não me pareceu que tuas determinações tivessem força

para impor aos mortais até a obrigação de transgredir normas divinas,

não escritas, inevitáveis;

não é de hoje, não é de ontem,

é desde os tempos mais remotos que elas vigem,

sem que ninguém possa dizer quando surgiram.

E não seria por temer homem algum,

nem o mais arrogante, que me arriscaria

a ser punida pelos deuses por violá-las.

Eu já sabia que teria que morrer (e como não?) antes até de o proclamares,

Mas, se me leva a morte prematuramente,

digo que para mim só há vantagens nisso”

Todo nordestino carrega consigo um dever que o antecede de compreender criticamente que a questão regional não foi resolvida, e, se entender como filho nordeste é um ato político. Que Padre Cícero, Irmã Dulce, Gonzagão e os Orixás; que os deuses em quem cada nordestino busca proteção perdoem esse desgoverno por não saber que nossa gente foi forjada na letra que insiste em lembrar que somos madeira que cupim não rói.

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