Não deixe de mostrar as suas ideias.

Não deixe que o nó na garganta faça você ir pra casa com inúmeras ideias brilhantes. Não deixe de mostrar as suas ideias, escritas, teorias, ou sonhos mirabolantes. Talvez você seja a dona da cura para uma doença. Talvez você seja o alívio para outra mulher com a sua presença. Talvez você seja a nova maior escritora que o mundo já viu. Talvez você mude a realidade das mulheres no Brasil. Talvez você seja tudo aquilo que quiser ser, e diga tudo aquilo que sempre quis dizer… Mas não disse, pois interromperam VOCÊ! (Jade Quebra).

Oi, eu sei que você me conhece, eu escrevo um pouco aqui, mas eu não sei se eu já te contei que eu e você já passamos por situações abusivas muito parecidas, apenas por sermos mulheres. 

Quantas bonecas a gente ganhou, né?  Mas é coisa inofensiva, é coisa de menina, aí a gente pausa aqui, “coisa de menina”. O intuito da boneca é “ensinar” desde cedo as meninas a serem mães – TODAS -. E se eu não quiser? A maternidade deveria ser uma opção da mulher, não uma imposição social em cima do nosso corpo e da nossa vontade, essa ideia compulsório de que mulher nasceu pra ser mãe, faz muitas de nós acharem que esse é o único caminho e objetivo palpável, faz as mulheres que não alcançam a maternidade acharem que há algo de errado com elas. “Incompleta” “Nunca vai conhecer o amor verdadeiro” “E quando você ficar velha, quem vai cuidar de você?”. Mas deixa eu te dizer, não tem nada de errado em ser mãe, tá? Assim como também não tem nada de errado em NÃO ser mãe! Você JÁ É COMPLETA, você já conhece o amor verdadeiro e ele vem em forma de respeito, paciência e amor por você mesmo. Tá tudo bem. 

Já se empolgou em alguma conversa e um homem te interrompeu pra te falar a mesma coisa que você já havia dito, mas no intuito de “tentar te ensinar”? Como se você não soubesse daquilo? Mansplanning, o nome. Se você já entrou em um debate onde te interromperam, diminuíram sua opinião e desmereceram você, entenda: o machismo faz as pessoas acharem que homens são superiores às mulheres, inclusive em pesquisas, trabalhos, funções, mas ei, você é INCRÍVEL. Eles vão tentar te calar muitas outras vezes, mas não abaixe o tom de voz, não abaixa a cabeça, não core as bochechas, não se esconda atrás do seu cabelo. Fale. Se for preciso, GRITE, mas se faça ser ouvida, por você e por todas nós, tá bom? 

E aqui, talvez vem o mais doído: se ele já te pegou pelo braço, se ele já te gritou, se ele te afasta dos seus amigos, se ele te bateu, ameaçou te matar, disse que sem ele você não era nada e que você NUNCA ia ser alguém sem ele, se ele já te obrigou a praticar um ato sexual quando você não tava muito afim, ele é um perigo pra você. E eu sei, pode parecer que às vezes ele tem razão, mas ele não tem! Eu sei que desde cedo o mundo faz parecer que as coisas que ele te diz são normais, que você merece, que você provocou, que ele te ama. Mas se te machuca, não é amor, tá? É abuso. Eu sei que pode parecer que você não tem ninguém, mas deixa eu te falar, você tem todas nós. Não deixe ele te fazer vítima em uma teia da qual é difícil se desvencilhar, você é INCRÍVEL, você é capaz e você consegue se libertar disso.  

No dia 04 de fevereiro desse ano, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) lançou uma nota[1]em que se disse preocupada com os alarmantes dados de feminicídio no Brasil no ano de 2019. 

A CIDH destacou que até o dia da publicação da nota de imprensa, 126 mulheres haviam sido vítimas de feminicídio no país, no entanto ainda havia 67 tentativas. Segundo dados constantes na referida nota, 40% dos casos de feminicídio da América Latina e Caribe, foram registrados no Brasil. A Comissão reporta grave preocupação com o fato de que a maioria das mulheres assassinadas já haviam prestado inúmeras queixas. 

Frente a isso a CIDH relembrou ao Brasil os pactos por ele ratificados, entre eles a Convenção de Belém do Pará, e fez menção a dispositivos presentes nos referidos dispositivos legais, reiterando ao país a urgente necessidade de operar, inclusive de ofício para investigar, punir e erradicar a violência contra a mulher. 

A violência contra a mulher alça inúmeras esferas: institucionais, sociais, familiares. É de se perceber que até a omissão estatal viola nossa existência em graus abusivos. A negativa de participação feminina em espaços públicos/políticos, fez com que homens, legislassem sobre nós, decidissem sobre nós e menosprezassem a violência e estado de vulnerabilidade latente em que estamos.

Não é hora de receber flores e permitir que façam votos de pesar, que incluam nossos nomes em uma lista de mortes que só aumenta a cada dia, NÃO SOMOS ESTATÍSTICA. O sangue jorrado que escorre das mãos do machismo, É NOSSO. Temos história, temos rostos, temos nomes, somos luta. O machismo interrompeu abruptamente mais de 126 sonhos do início do ano pra cá. E eu sinto não saber o nome de todas elas, mas esse texto É PRA ELAS. POR ELAS, porque enquanto todas nós não tivermos alcançada a igualdade, a liberdade, nenhuma de nós terá vencido. 

Estamos ocupando os lugares, na política, na nossa família, nos espaços de debate, nos espaços de decisão, na ciência, nas empresas, no MUNDO. Não vão nos parar. Não vamos mais permitir que decidam por nós. Que falem por nós. Que nos silenciem. CHEGA! Eles nem perceberam, mas enquanto eles tentavam nos calar, nós já estávamos organizando a (r)evolução. E ela é FEMININA! 

Por Alanna Aléssia em 09/03/2019. Alanna é pesquisadora em Direitos Humanos pelo Centro Universitário de João Pessoa e estagiária na Defensoria Pública da União.


[1]http://www.oas.org/pt/cidh/prensa/notas/2019/024.asp?fbclid=IwAR29DPySrtbfqc9X_xpF4KpiKJUQJ13o83pr5lGxMQUCPJ9XQhajE-L9svQ

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