A cortina de fumaça do “Messias” é azul ou rosa?

No antigo testamento, a promessa do Messias consagrado para cumprir o propósito do poder divino consumou-se na figura de Jesus Cristo. Já no Governo Brasileiro, a desinformação a serviço das forças reacionárias conduziu um “Messias” completamente diferente ao poder, profetizando com seu discurso raso e retórica autoritária que veio para “mudar tudo isso aí”.

Não levou mais do que quinze dias para que a profecia se consumasse na realidade do sofrido povo brasileiro, e as abstratas mudanças prometidas por nosso “Messias Tupiniquim” passaram a ganhar cor, forma e propósito.

A redução no aumento do salário mínimo, a demissão em massa de funcionários contrários a “ideologia bolsonarista”, a facilitação da posse de armas por decreto e o desmonte de importantes Ministérios são a tônica de que as medidas do atual governo priorizam a retribuição das forças ruralistas, armamentistas e fundamentalistas pelo apoio a sua chegada ao executivo, sem qualquer atenção aos direitos difusos e transindividuais que possam estar no caminho.

Comunidades que há muito conviviam com as distorções de uma sociedade discriminatória acompanham com terror as medidas tomadas pelo então presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL). Logo em suas primeiras horas de governo, a pastora evangélica Damares Alves, autodenominada como “terrivelmente cristã”, foi indicada para chefiar o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, bastando pouco dias para que incitasse uma série de polêmicas envolvendo o gênero das cores e o desvirtuamento de pautas morais.

Se engana quem acredita que o discurso da ministra é descuidado. Vale lembrar que Damares é também advogada, e certamente aprendeu nos bancos escolares que a nossa constituição proíbe toda forma de discriminação, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas não mencionadas explicitamente, tais como gênero e orientação sexual.

Não é preciso uma analise aprofundada para perceber que as mudanças promovidas por esse desgoverno seguem uma receita antiga, conhecida como “cortina de fumaça”, onde determinada temática é posta como forma de distração para outras medidas impopulares –  prática que sempre acompanhou regimes autoritários. No “militarismo fundamentalista” que passamos a encarar desde o primeiro de janeiro, não poderia se esperar algo diferente.

No entanto, por mais simplista e absurdo que possa parecer o debate sobre a declaração que “menina veste rosa e menino veste azul”, não podemos negligenciar o grave impacto que a fala da ministra impõe à sociedade, legitimando o machismo e a lgbtfobia num país que ostenta o primeiro lugar nos indicadores de crimes homofóbicos do mundo, seguido pelo México e pelos Estados Unidos.

Em artigo recente de autoria do professor de Direito da UNIFESP e ativista de direitos humanos Renan Quinalha, os próximos anos prenunciam o “desafio de conjugar múltiplas pautas e agendas, sem hierarquizar e caracterizar injustiças simbólicas de diversionismo.”


Isto significa dizer que precisamos racionalizar e otimizar o enfrentamento desse discurso, ainda que seu propósito seja claramente distrativo.

Não podemos deixar de lado o enfrentamento até mesmo dos pontos rudimentares dos motes da ministra Damares e seus impactos nas vidas das pessoas, o que não significa necessariamente se omitir na luta contra o recrudescimento de direitos nas searas sociais, trabalhistas, econômicas que certamente virão.

Seja qual for a cor, para atravessar essa cortina, precisaremos reinventar a nossa resistência, unindo as mãos que por vezes se soltam.

Por Diógenes Dantas em 15/01/2019. Diógenes é Vice-Presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Gênero da OAB-PB e Porta-Voz do Instituto Projeto Público.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário!
Por favor insira seu nome aqui