As mulheres e suas pautas vem ganhando espaço paulatinamente nas agendas de debate, à custa de muito sacrifício e, é claro, muitas lutas.

Porém, ainda vivemos em uma sociedade patriarcal e machista, na qual quando uma vítima denuncia o seu agressor, mais se pergunta sobre a vida pretérita dela do que quantas vezes ele pode já ter cometido esse crime, ou mesmo sobre o caráter do próprio. Não fui criada por uma mãe feminista, fui me desconstruindo ao longo do tempo e com as convivências e, por isto, hoje posso me dizer militante da luta pela igualdade entre gêneros.

A despeito disso, sempre gostei bastante de escrever e há cerca de seis meses participei de um edital para ser parte de um manifesto literário coletivo sobre abuso.

Meus textos foram selecionados e juntamente a 17 mulheres, nosso livro ganhou nome e forma. “Eu assumo as consequências de me pertencer” trata de forma literária sobre vários tipos de abuso. É um grito dado por mulheres que o viveram em suas mais diversas formas e que sofreram os danos e suas consequências caladas. É a voz daquelas mulheres que choram baixinho depois de ter apanhado do marido, para não acordar os filhos que dormem. É a voz daquela moça que sofre violência psicológica daquele namorado que ela acha tanto amar. É aquela criança, com seu choro abafado no travesseiro, abusada sexualmente por um parente ou amigo da família. É o canto daquela mulher negra que é marginalizada pela sociedade e por si só isso já é uma injúria.

Mas, o mais importante é que comecei a refletir quantas vezes mulheres são abusadas silenciosamente, mulheres com quem convivemos, que conhecemos, mulheres que escondem suas marcas sob roupas ou uma maquiagem pesada? Mulheres que escondem sua dor e a externam em formas de palavras,mulheres fortes que seguram em si a barra enorme que é sustentar uma família eque por terem sido criadas achando que “o amor suporta tudo “pensam que de um relacionamento abusivo não podem sair?

Qual é o nosso papel nisso? Onde eu e você estamos sendo coniventes com esses agressores?

Onde nós podemos ser um ponto de apoio para aquela que sofre? Sua luta tem sido apenas sua ou é de todas? O que você pode fazer para ser o grito daquelas mulheres sem voz, que choram baixinho nas comunidades, sustentando suas crianças no colo e cheias de feridas na alma, sem perspectiva nenhuma de existência?

Qual o seu papel? É preciso refletir. Mais que isso, é preciso agir. E antes da ação, que haja profundo debate sobre o abuso praticado em tantos espaços quantos possam se encontrar mulheres que convivem com essa violência velada (ou não) e socialmente ignorada.

Por Ana Carolina Almeida, em 11/12/2018.

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