Quando machismo rende aplausos e escolhem quais violências merecem indignação

Toda semana a internet “arruma” um assunto que involuntariamente gera um debate – a meu ver, baixo – que mais parece briga de galo do que algo construtivo, fatidicamente e infelizmente, a maioria dos debates em redes sociais está voltado em denegrir a imagem do polo mais fraco, e adivinhem quem é o polo mais fraco da mídia?

Fernanda Lima – a ela toda a minha solidariedade – foi desumanamente humilhada após um encerramento de seu programa, em que falou sobre derrubar um sistema machista, homofóbico e racista.

Ora, em um país onde se tem 5.896 boletins de ocorrência por mortes decorrentes de intervenções policiais e a população negra representa 78% (dados do IPEA) da atingida, um país onde a taxa de homicídios de negros cresce 23,1% – e sobe em um ritmo frenético- enquanto a de brancos diminui em 6,8%, é de saltar aos olhos a necessidade de que se reavalie a nossa postura como sociedade ante a violência estrutural e institucional a qual submetemos a população negra. Ponto pra Fernanda Lima, que foi direto ao ponto, o Brasil é um país racista e isso precisa mudar.

Em relação a homofobia, como informa a Agência Brasil, no ano de 2017, foram registradas 445 mortes de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais por motivos homofóbicos, esse índice representa UMA VÍTIMA A CADA 19 HORAS, e se você acha isso muito, o levantamento de 2018 tá vindo aí com um aumento absurdo de crimes motivados pelo ódio.

Mais uma vez, a apresentadora foi certeira. O Brasil é homofóbico, com taxas absurdas e essa cultura também precisa ser mudada.

Em relação ao machismo, eu poderia te apresentar dados, mas a própria crucificação da Fernanda já te mostra o quanto isso é latente no nosso país. Não houve uma mentira sequer na fala dela, tanto é que os seus maiores críticos em nada puderam discordar, buscaram a medida alternativa, aquela que a gente sofre quando se é mulher, nos chamam de “feminista”, como se o feminismo fosse algo depreciativo, mas amigos, é graças ao feminismo que resistimos e é graças a ele que não nos deixaremos silenciar.

Em contraposição a fala magnífica de Fernanda, durante um programa que deveria servir para arrecadar fundos e investir em instituições que prestam apoio à crianças e adolescentes, um certo apresentador usou e abusou do machismo, da misoginia, da gordofobia e do racismo. E se você vai começar a dizer que tudo isso é “mimimi”, eu te digo que só é “mimimi” porque o atingido não é você, caso fosse, você o bombardearia, como bombardeou a Fernanda.

No momento em que você se dirige à uma mulher em rede nacional e diz que não pode abraça-la porque a roupa que ela está usando o deixa excitado, você está incentivando o assediador que se acha no direito de violar o corpo e a honra de alguém pela roupa que ela usa, e digo mais: não é engraçado. É violento, é baixo, é constrangedor.

Quando você olha para uma criança negra e pergunta a ela o que ela quer ser, e quando ela lhe responde, você faz piada do sonho da criança por conta do cabelo dela, você está encorajando empresas e pessoas a discriminarem, negarem oportunidades, e você está justificando os 78% de crimes cometidos contra a população negra. Isso aqui também não é engraçado.

Agora, quando você faz tudo isso em rede nacional e recebe como “prêmio” uma capa de jornal exaltando suas “inúmeras qualidades” e seu comprometimento com a “sociedade brasileira”, você demonstra o que é o privilégio do homem branco e hétero na sociedade midiática e machista.

Enquanto Fernanda Lima teve seu programa cancelado, muitos comemoram, porque a verdade é que ninguém quer ser culpado pelo sangue dos LGBTQ, dos negros e das mulheres que jorra todo dia e a cada hora no Brasil, vivemos no país da Alice, onde preferimos fingir que nada disso acontece e que tá “tudo bem”, enquanto a violência não chegar em você, ela não existe.

Mas deixa eu te dizer: tem sangue escorrendo pela sua TV. Tem sangue jorrando da tela do seu celular e do seu computador.

Todas as vezes que você agride alguém por discordância  – quando  deveria rebater a ideia, não desqualificar a pessoa – e aplaude quem violenta várias classes já vulneráveis, é você quem dá voz pra que a violência contra os homossexuais, contra os negros e contra as mulheres prossiga.

Não ouvir falar dessa violência com alvo certo não faz ela desaparecer. Não se preocupar com essa violência, não faz os índices absurdos diminuírem. Se omitir diante dessas violações não te faz um “não preconceituoso”, te faz cúmplice.  

A hipocrisia brasileira é tanta, que em setembro as redes sociais são cheias de laços amarelos, dizemos que precisamos “entender” e “conversar” com as pessoas, colocamos em nossos murais que estamos dispostos a dialogar e ajudar, mas esquecemos de especificar QUEM estamos dispostos a “ajudar”, não sendo negro, homossexual ou mulher, tá tudo bem. Agora, quando quem precisa de ajuda e humanidade se enquadra em algum desses grupos, peguem as pedras, preparem as fogueiras, e amarrem para queimar.

Acontece que, e aqui uso a frase que mais vem sendo presente em meus dias, eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer. Seguimos ao lado da liberdade, aquela que vai derrubar o sistema RACISTA, MACHISTA e HOMOFÓBICO. Viva as Fernandas que erguem voz contra o que não cabe silêncio!

 

 

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